Você lembra da primeira vez que viu no cinema uma mulher parecida com você?

Não aquela heroína intocável, nem a “boa moça” obediente ou a vilã estereotipada, mas alguém que parecia feito de carne, osso, memórias e contradições. Uma personagem que chorava e, no minuto seguinte, soltava uma gargalhada; que podia se mostrar vulnerável sem deixar de ser forte; que errava, recomeçava e encontrava novos caminhos.

Ao longo da história do cinema, mulheres assim não foram maioria. Por muito tempo, suas representações ficaram restritas a papéis estreitos, onde eram definidas pelo olhar dos outros, mães abnegadas, musas silenciosas, corpos desejados e figuras de apoio. Quando surgiam personagens mais complexas, era como abrir uma fresta para o mundo real: finalmente víamos mulheres que se pareciam mais conosco e menos com um ideal fabricado.

No universo de certos filmes, essas mulheres floresceram com força. Elas não eram feitas para serem apenas “boas” ou “más” eram humanas, com contradições visíveis e histórias que se recusavam a seguir um roteiro previsível. É nesse território que surgem as mulheres que inspiraram nossa estampa Mulheres de Almodóvar.

                             
Estampa criada em 2022
Raimunda, por exemplo, sobrevive a uma tragédia doméstica com uma determinação silenciosa, transformando dor em reinvenção. Manuela atravessa a cidade e o próprio passado para buscar uma conexão que parecia perdida. Agrado, com sua sinceridade e humor cortante, nos lembra que autenticidade também é resistência. Janis enfrenta segredos difíceis de carregar; Ana se equilibra entre inocência e descoberta; Alicia e Lydia vivem tramas em que o corpo, a memória e a vulnerabilidade têm tanto peso quanto a fala.

Essas personagens carregam marcas visíveis e invisíveis. Elas aparecem nas cores que vestem, na maneira como ocupam o espaço, na escolha das palavras, ou na decisão de ficar em silêncio. 

Criam redes de apoio improváveis, rompem com expectativas sufocantes, descobrem novas formas de viver. Elas se movem entre afetos, crises, reconciliações e rupturas, sempre com uma intensidade que não pede licença.

Foi da nossa conexão com o cinema que representa mulheres reais que nasceu a vontade de criar uma estampa que fosse também um tributo à pluralidade que elas carregam. Criada em 2022, Mulheres de Almodóvar é uma tradução livre da energia que essas histórias deixam em quem as assiste. Cada traço foi pensado para capturar intensidade, cada cor escolhida para traduzir presença, cada detalhe inspirado no que elas nos fazem sentir.

No fundo, essas personagens nos lembram que ser mulher não é habitar um único papel, mas vários ao mesmo tempo. É poder ser o cuidado e a exigência de cuidado; o silêncio e a palavra que rompe o silêncio; a fragilidade que não teme coexistir com a coragem. É, acima de tudo, ter direito a ser complexa, e ser vista assim.

 

Linha Bem Querer 2025



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